domingo, 20 de maio de 2012

vão da vida


Vão é palavra cheia
Onde cabe o mundo
Nela, encontro você
E me perco de mim

Oco é o vão que carrego
No peito, ferida aberta,
Onde dorme um sonho
Que o caminho perdeu

No hiato descanso
Meu passo torto
E mato o tempo
A tempo de esquecer

Vida é o que carrego
No amplo espaço
Que faço da janela
Aberta ao vento.

sábado, 12 de maio de 2012


nova york, 1989. essa imagem é pra mim um momento de chegada. vindo do trópico e caindo no inverso duro de manhattan. depois de horas de viagem. avião. aeroporto. um banho fervendo e a janela embaçada. la fora o inverno glacial. e eu aconchegado neste outro mundo que me acolhe ao seu jeito.passei dois anos de minha vida nesse lugar. anos 70. outro mundo. desde então volto sempre que posso e caminho quilômetros por manhattan, brooklyn....

domingo, 6 de maio de 2012

céu da boca

as coisas não são tão assim coisas, afinal. têm nome e sobrenome, alguns impronunciáveis, é verdade, mas que se soletram no escuro quando ninguém vê. palavras vagabundas que crepitam na fogueira da boca, afirmando coisas sobre as coisas inomináveis, que se diluem em sentimentos ambíguos e se perdem na poeira do esquecimento. deslembradas antes mesmo do dizer, morrem no céu da boca, como estrelas repentinas de luz atrasada, afogadas na língua imóvel. mas algumas poucas escapam entre os dentes, escorrem como baba pelos cantos e iluminam sentidos guardados nas funduras dos instantes inesperados, como quando nos encontramos, querida amiga, fora da curva dos dias normais e inventamos apaixonados todo aquele vocabulário, em que reaprendemos nossos nomes. teu corpo sobre o meu fez um novo idioma, para, a boca imóvel, me frasear em teu ventre. na nossa sintaxe invertemos a norma culta e a diferença de idade uniu sujeito, verbo e complemento num novo sentido para as coisas, que, afinal, não são tão coisas assim.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Fado


O mundo acaba em tua boca
Onde cabe o fundo
Onde cala o som
Que emudece o texto
Cada vez que soltas a língua
E derramas sentidos
Palavras que escorrem
Inundam, me afogam
E me deixam ao léu
Ao vento, à toa, na boa,
Em frases vazias
Em que pese o que dizes
Teus assuntos de ninfa
Ainda que mintas
E, infeliz, te deites
Ao meu lado, um bocado
Enquanto canto este fado
De enfado, calado, sem tom

segunda-feira, 5 de março de 2012

Ainda o verão

O verão sempre teve em mim um efeito mágico. É como se as coisas pudessem, enfim, dar certo. A primeira vez que vivi essa sensação foi na infância, no Leblon, quando o bairro ainda era relativamente pobre e as pessoas se misturavam mais. Nós tínhamos uma turma de amigos da rua, na faixa dos 5 aos 9 anos, que, com uma ou duas mães, íamos à praia juntos, no que, para mim, parecia ser uma grande expedição por longos quarteirões e ruas. O prazer de pisar na areia, de entrar n'água sob o sol, é algo que ainda hoje perdura em mim. Uma sensação de euforia diante de coisas simples.

Aos 12 anos, no Píer de Ipanema, a euforia ganhou contornos sensuais. Estávamos em 1972, nas dunas do barato — com Gal gata, e Leila Diniz, mito —, e as meninas gritando sua liberdade sexual, por meio de um fiapo de biquíni, chamado “tanga”. Os corpos lânguidos estendidos sobre a areia, tostando ao sol. Nos tornáramos tribais e indígenas. O amor era intenso e misterioso. Também era despreocupado. Não havia ainda a sombra da morte, que a era da Aids trouxe. Tanatos invadindo a festa de Eros. As meninas gemiam, num soluço angustiado, tinham pelos, e suspiravam apaixonadas. O sexo era banal, mas extremamente profundo. Havia um grito de liberdade comportamental tão radioso quanto o sol. As maneiras de viver estavam mudando rapidamente, mas vivíamos em plena ditadura, o que atrapalhava muito.

Aos 20 anos, em minha primeira viagem à Amazônia, entendi a importância da intensidade do calor em minha vida. Depois de ter vivido, anos antes, nos Estados Unidos, e ter pego temperaturas geladas, compreendi que sou um ser do trópico. A depressão e tristeza que sinto no frio, se transformam em euforia sob o sol. E as matas suadas da Amazônia eram o calor na sua imensidão úmida. Entendi porque aquele povo ribeirinho vive numa intensidade preguiçosa e sensual. E me descobri da mesma tribo.

Mesmo agora, que o calor no Rio ganha alguns graus a mais, represado por edifícios que bloqueiam o fluxo do vento, ainda percebo vestígios da antiga euforia. Ela me faz ignorar as dores dos anos acumulados, da respiração abafada, das perdas amorosas e me estimula a caminhar pela cidade. Passo após passo, sigo rumo à orla mais próxima para morrer de saudade à beira do mar. É quando penso nas viagens que ainda quero fazer. E tudo, ainda, parece poder dar certo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Curry tropicalista


Amigos que já experimentaram o curry tropicalista e deram sugestões: Sô, Marta, Ruben e Dominique

Sempre quis inventar uma receita que pudesse ser apreciada por meus amigos e, desde meados do ano passado, venho trabalhando num molho que, à falta de idéia melhor, batizei de curry tropicalista, dada a sua vocação antropofágica de misturar tradições culinárias distintas. Não é nada demais, mas as pessoas que o provaram, e não foram poucas, aprovaram o resultado, pelo menos no que se refere ao sabor. As críticas mais contundentes, feitas por pessoas especializadas nos tratos da cozinha, se restringiram à apresentação  do prato, o que é relativamente fácil de ser resolvido. Descrevo então a receita para que fique o registro e outros possam aprimorá-la.

Bem, o elemento central desse prato, como sugere o nome, é o curry, e, à guisa de orientação, é preciso falar um pouco desse condimento muito presente na Índia, no Paquistão e até mesmo na Tailândia, mas cuja fórmula varia de região para região, de família para família. O curry, portanto, é uma designação genérica para um condimento oriental preparado a base de numerosas especiarias. Apesar de sua variedade, porém, alguns elementos são recorrentes o suficiente para que possam ser considerados como elementos básicos. São eles: cardamomo, cúrcuma, fenu grego e coentro. Todos esses condimentos estão disponíveis em pó no Saara (Casa Pedro). O ideal, no entanto, é encontrar suas versões em grão e moer tudo junto num pilão.No meu curry, acrescento ainda gengibre seco ralado na hora, pimentas-do-reino vermelha, preta e branca.

Normalmente esse é o primeiro passo que dou quando preparo o molho. Amasso tudo com pilão, até obter uma quantidade razoável, numa tonalidade amarelada ou amarronzada. Procuro misturar os ingredientes em quantidades homogêneas, sendo um pouco mais generoso com os elementos básicos. O segundo passo consiste em picar uma cabeça de alho, tendo o cuidado de retirar de cada dente o talo (é este elemento do alho que causa azia e retirá-lo não altera em nada o seu poderoso sabor). Em seguida picam-se dois ramos de coentro fresco e uma quantidade generosa de cogumelos igualmente frescos de tamanho médio, bem lavados (no Hortifruti tem). Também separo um vidro de azeitonas descaroçadas e pimentas biquinho.

A base do molho é a polpa de tomate. Fiquei muito bem impressionado com um de marca Originale, que já vem temperado com sal e pedaços de cebola moída. Mas pode ser a polpa de tomate em lata. A este molho acrescentam-se duas generosas colheres de sopa mostarda Dijon (uma sugestãao que recebi foi substituir a mostarda por vinagre balsâmico), azeite de oliva, sal e canela para tirar a acidez do tomate (em vez de canela, algumas pessoas preferem açúcar ou mesmo mel). Depois que estiver tudo homogeneamente misturado, acrescenta-se o curry e um ramo de coentro.

O molho está pronto. O que acontece a partir daqui pode ter variações. Normalmente faço um fettuccine ao ponto (17 minutos depois da água ferver, embora muita gente prefira mais al dente). Nesse caso, preparo atum português em lata (umas quatro latinhas para um panelão com quase meio quilo de massa), misturando-o com um pouco de shoyo e cominho. Mas pode-se fazer igualmente camarões e arroz, ou peixe etc.

Depois que o fettuccine está pronto, misturo nele o atum e as azeitonas e as pimentas biquinho. Ao mesmo tempo, refogo o alho no azeite até dourar e acrescento os cogumelos. Ainda com o fogo alto, boto dois dedos de água e deixo cozinhar um pouco e, por fim, já perto de desligar o fogo acrescento o molho.

Tomate (a polpa), coentro fresco, gengibre e alho...

Aqui chegamos ao problema da apresentação. O que faço é misturar esse molho à massa com o atum. Tudo junto e misturado. A aparência fica a de um macarrão de acampamento, mas o sabor é raro e sutil, com todo o perfume do curry e das demais especiarias aparecendo aqui e ali. Na hora de servir, coloco o segundo ramo de coentro fresco sobre a massa com parmesão ralado na hora. Um bom vinho, se a temperatura permitir. Se não, uma boa Colorado Cauim. Uma opção é servir o molho a parte, especialmente se, em vez de massa, for arroz.

Esta aí a dica.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O espírito natalino e o pôr do sol em Ipanema

Alfredinho, meio borrado na foto, uma espécie de Papai Noel socialista

Num desses dias de folga do jornal, durante a semana de Natal, aproveitei para dar uma caminhada com Soraya pelo Arpoador à hora do pôr do sol. A idéia original era mergulhar nas águas transparentes daquela ponta de Ipanema, que me devolve à época de minha adolescência, quando o mundo ainda se descortinava diante de mim. Aquele fim de dia, no calor do verão carioca, merecia um mergulho refrescante. Mas fomos nos distraindo com a multidão que ocupava tanto o calçadão como as areias. Parecia um dia de domingo de tão cheio, e no entanto era apenas uma quinta-feira à boca da noite.

Há muito que não andava pelo calçadão do Arpoador e fiquei surpreso ao encontrar tudo mais ou menos igual ao que ali sempre foi desde minha infância. Esbarramos inclusive com uma turma de cinquentões, com cara de hippies envelhecidos, curtindo como se adolescentes fossem uma banda de rock'n'roll e reagge, estrategicamente tocando à entrada do parquinho. Aquela circunstância dava um clima de Búzios nos anos 70. Até reconheci Bocão, o famoso surfista da minha geração.

Lá pelas tantas, o sol começou a desaparecer na linha do horizonte, como diria Cartola, tingindo o céu em tons avermelhados e dando ao contorno dos morros Dois Irmãos um contraste bonito. Alguém puxou as palmas e logo havia uma multidão aplaudindo o espetáculo da natureza. Entre elas, uma mulher que nos chamou a atenção pela forma enfurecida como batia as mãos, a ponto de tornar sua performance mais evidente do que a dos outros que estavam em torno dela. Soraya me olhou com uma expressão familiar, misturando ironia e uma certa decepção. Então emendei:

"O que diria Goffman de uma encenação dessas?"

Estava me referindo a Erving Goffman, que em suas reflexões recorreu à metáfora do teatro para analisar as situações cotidianas. Ele fala de encenações e projeções de imagem que fazemos inclusive inconscientemente para os outros a fim de garantir que as situações sociais tenham um determinado desfecho favorável às nossas pretensões, sejam estas quais forem. Pela forma exagerada como aquela mulher batia palmas, ficava evidentemente clara sua estratégia de se mostrar integrada àquele meio e àquela turma. Porém, como ela exagerava, sua representação teatral perdia a eficácia desejada, tornando-a mesmo um tanto ridícula em sua ênfase e, por extensão, tornava igualmente ridículas, pelo menos a nossos olhos desencantados, aquelas pessoas todas ali, aplaudindo o sol, no que nos parecia uma exibição narcisística e falsa.

Essa percepção ganhou mais força ao ouvirmos o diálogo entre dois vendedores ambulantes que trabalhavam desarmando suas tralhas:


"Em vez de bater palmas, bem que podiam nos ajudar a carregar essa tralha."

Rimos daquela situação e seguimos adiante, tendo desistido de mergulhar entre a multidão que se espremia na areia. Caminhamos rumo a Copacabana, onde seguimos pelo calçadão da Atlântica até a altura da Almirante Gonçalves, onde entramos para pegar o metrô. No caminho, aproveitamos para abraçar Alfredinho no Bip Bip. Ficamos com ele uns 40 minutos, conversando sonbre diversos assuntos, enquanto ele organizava sem alarde os últimos preparativos para o almoço coletivo de Natal que todos os anos ele, com a turma do Bip, prepara para a população de rua de Copacabana. É uma ceia preparada no Copacabana Palace e que chega ao Bip naqueles carrinhos de avião, que mantêm os alimentos quentes.

Além disso, Alfredinho também estava cadastrando moradores dos morros em torno do bar para receberem cestas básicas. Nessa pouco mais de meia hora que ficamos ali, vimos algumas famílias chegando para se registrarem num caderno pautado, que uma pessoa anotava, seguindo as instruções de Alfredinho. Ele, por sua vez, entrevistava as pessoas, perguntando quantas eram, se estavam empregadas, se as crianças estudavam etc.

Como ocorre toda vez que me encontro com Soraya, já no metrô, fizemos um balanço do nosso passeio pela zona Sul carioca, buscando uma síntese coerente em relação ao que presenciáramos desde o pôr do sol em Ipanema. E a imagem daquela mulher batendo palmas furiosamente, buscando chamar a atenção, nos pareceu um forte contraste com o jeito silencioso, sem alarde, com que Alfredinho ajuda centenas de pessoas todos os anos. Percebendo nossa admiração, ele se envergonhou e, num tom de desculpa, se justificou:

"É que sou socialista e católico."